Ciência, a fronteira sem fim!


Observem esta conversa ocorrida no Salão Oval da Casa Branca às 16h30 de 12 de junho de 1940, entre o engenheiro elétrico Vannevar Bush e Franklin Delano Roosevelt, então presidente americano, em um primeiro encontro:


“Bush preparou-se para responder a perguntas difíceis do presidente, mas Roosevelt já havia se decidido. Depois de alguns comentários casuais, ele escreveu ‘O.K. - FDR' na única folha de papel. Bush estava exultante. Ele teve seu cobiçado endosso. E aconteceu em menos de 15 minutos”. (“Endless Frontier”. Por G. Zachary. pág. 112).


E o Office of Scientific Research and Development [OSRD] (Escritório de pesquisa e desenvolvimento científico), se fez! Para mim, o pitch mais importante da história da ciência moderna. Um evento histórico de grande impacto - a 2ª Grande Guerra - impulsionou o nascer da ciência moderna. Outro a manteve e a fez prosperar no pós-guerra: o Mercado.


Nosso principal escritório de ciência, tecnologia e inovação, o CNPq, criado pela Lei nº 1.310, de 15 de janeiro de 1951, tem por base o OSRD, mais tarde National Science Foundation (NSF), organismo que, nos Estados Unidos, exerce um papel muito semelhante ao seu. E a ironia disto tudo: a Ciência brasileira, por ter sido inspirada na americana, pasmem, é filha do casamento da 2ª Grande Guerra com o Mercado. Em outras palavras, a necessidade de combater as potências do eixo (Alemanha, Itália e Japão) forçou a uma rápida prontidão tecnológica (o que chamaríamos hoje de inovação), pois os aliados estavam muito atrás daquelas potências, e colocou o cientista empreendedor Vannevar Bush - juntamente com outros cientistas, forças armadas e setores industriais -, no centro do tornado, catapultando os EUA à potência científica, tecnológica e bélica, o que dura até os dias de hoje. Para mim, essa é a verdadeira origem (não tão nobre) da decantada e ainda pouco efetiva Tríplice Hélice atual: a necessidade premente.


Estes dois últimos anos de “disse-não-disse” e “eu acho que” de protagonismo dos não-cientistas (aqui e no mundo), fizeram com que a verdadeira Ciência intencionada, quando da criação do CNPq, estagnasse, deixando espaço para que uma pseudo-ciência-política se elevasse. Precisamos, portanto, reaquecer a Ciência factual, resgatar o que chamo de espírito innovation-driven science, ou ciência “puxada” pela inovação, como fizeram Bush e contemporâneos. O novo milênio, que começa num pós-guerra viral (outros virão), mostrou que o mundo não pode depender de pessoas não versadas na ciência formal, políticos mal-intencionados e de poucas grandes indústrias e, por fim, concentrar-se em uma única guerra. A Ciência tem de correr nua pela sociedade e visitar outros frontes. Todos têm que se apropriar dela, pois todos serão necessários. Não se pode mais permitir fronteiras.


As guerras de hoje


Em 2015, os países membros da ONU planejaram a Agenda 2030, um plano de ação global que reúne 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) e 169 metas, criados para erradicar a pobreza e promover vida digna a todos, dentro das condições que o nosso planeta oferece e sem comprometer a qualidade de vida das próximas gerações. Um olhar beligerante pode simplesmente elencar cada um dos itens como batalhas. A luta contra o famigerado vírus está declarada no subitem 3.3 do ODS 3, Saúde e Bem-estar. Mas e os outros frontes, as outras 16 trincheiras?


O vácuo deixado pela universidade


“Na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Vou aceitar a atribuição dessa frase ao filósofo Ésquilo, embora muitos historiadores contestem esta autoria. Com base nela, posso emitir o seguinte corolário, este de minha autoria: “Na dúvida sobre a autoria, quem está mais próximo é considerado o dono da verdade, até que se prove o contrário”. Brincadeiras à parte, onde eu quero chegar? O mundo entrou em pânico quando o morador do ODS 3 - um vírus - deu as caras, e fez com que todos ignorassem os moradores dos outros 16 ODS. E pior ainda: a universidade (em nível mundial), guardiã da Ciência, perdeu as estribeiras. Ao invés de agir friamente, seguindo o empedernido e eficaz método científico: observar, conjecturar, experimentar, concluir, ajustar e voltar ao início, foi a primeira a, literalmente, fechar, abrindo um vácuo para que pseudo-cientistas criassem (ou reclamassem para si a autoria de) pseudo-verdades que se seguiram (não preciso relatar aqui quais). A universidade perdeu o protagonismo, permitindo que todos bagunçassem a ordem das coisas. Além de não mostrar scripts mínimos sérios e condizentes a serem seguidos, deixou de atuar também nas outras 16 frentes. Resultado: enfraqueceu-se e, para restabelecer-se, terá de galgar novamente seu posto. Alguém já disse: “Mas duro do que a subida é a descida”. A universidade continua caindo, mas ainda não é tarde demais.


A luz no final do túnel


“Veja o quanto estamos nos distanciando cada vez mais do que nos interessa resolver: nossos verdadeiros problemas”. Escrevi essa frase na AC Procurando as bordas, há quase um ano. Nela apontava, além do 17 ODS, outros desafios suficientes para ocupar positivamente a sociedade na busca por geração de benefícios, traduzidos em inovações sociais. A ciência moderna teve sua aurora catalisada pela 2ª Grande Guerra, quando a inovação restabeleceu a ordem ao mundo e mostrou que, além de uma meta primordial da humanidade, não poderia ter seu passo reduzido. Hoje, nossa verdadeira guerra está distribuída em 17 batalhas, não apenas em uma. Temos, portanto, mais frentes a ocupar.


Reinicializando…


Ocupem (universidades) novamente os vossos quadrados. Evitem o vácuo, já que é uma impossibilidade física. Não deixem a verdade científica sucumbir a este vírus e ao outro produzido por efeito colateral, a variante denominada fake news. Em “Fronteira sem Fim”, Vannevar Bush descreveu num pitch de 15 minutos um modelo de negócios que reorientou o mundo. A universidade precisa defender um novo pitch, que fale das outras batalhas, que contenha, de preferência, uma cláusula eliminando qualquer fronteira científica. A inovação pode ser esse fator eliminador.

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