Dois relógios e a tomada de decisão


Imagine o seguinte evento fictício: você ganhou uma excursão, incluindo acompanhante, com destino à Flórida e escala em Porto Rico. “Show-de-bola”, diria quem está lendo esta sentença. Não há muito o que aprender sobre decisões em um presente como este. Embora o texto seja para você, abordará ações da comandante Lady, pilota da Air Innovation, aeronave que fará este trajeto. Esse relato é um pouco parecido com aquela estória da cartomante que, consultada antes da viagem, diz que é seu dia de sorte, mas não jogou os búzios sobre a sina de quem iria pilotar teu avião.


Aqui a coisa fica interessante. O trecho por sobre o qual o Air Innovation passará tem o peculiar nome de Triângulo das Bermudas, picadeiro de diversos desaparecimentos (de aviões, barcos cargueiros, navios), para os quais se popularizaram explicações sobrenaturais. Profissional que é, a Cmdt Lady não liga para coisas extrafísicas, pois, além de ter sido a laureada de sua turma, é reconhecida como exímia tomadora de decisões. Só que tem uma pequena mania: sempre utiliza dois relógios analógicos automáticos, que independem de baterias, hábito, e relógios, que herdou do pai. Em suas palavras: “A probabilidade de os dois falharem ao mesmo tempo é praticamente zero; a de apenas um quebrar é muito mais alta!”. Coisas de aviadora…


A aula condensada de hoje versará sobre a principal característica (inata ou adquirida) dos gestores, aquela que define o sucesso ou fracasso de um empreendimento - já que toda escolha é binária -, habilidade que é proporcional à remuneração: a tomada de decisão.


O evento


Como a cartomante não falou sobre a sorte da Cmdt Lady, ela está por conta própria. Perto da hora de viajar, ajusta seus dois relógios. O Air Innovation parte de São Gonçalo do Amarante(RN) com destino a San Juan(Porto Rico). Até aí, vôo em céu de brigadeiro. Depois de uma hora no chão, às 8h00 p.m., o avião decola rumo à Flórida(USA), em uma viagem de 3h. Após uma hora de voo, cansada da viagem anterior, a Cmdt Lady passa o manche ao copiloto que, como de praxe, coloca o Air Innovation no automático, já que a jornada à frente durará exatas 2h. “Um cochilo de uma hora será bom para reconectar as sinapses”, pensou ela, e assim o fez. Em algum momento do cochilo, é acordada abruptamente por uma turbulência que aciona até as máscaras de oxigênio. Pensa: “Diacho de Triângulo das Bermudas. Tinha de acontecer bem aqui, só para tirarem sarro da minha cara”. Se organiza, assume o controle da aeronave e pergunta pelo estado das pessoas. Todos “ok” e um grande detalhe: os instrumentos eletrônicos pifaram, incluídos aí indicador de combustível e bússolas! Concluem que terão de operar o avião no manual e sem orientação da torre de controle.


Pilota experiente que era, não se desesperou: sei a hora que saímos de San Juan, o tempo total de trajeto, a velocidade média de cruzeiro e conheço as estrelas (falei que o voo era noturno?). Não será difícil calcular onde estamos e quando deveremos nos preparar para aterrissar. Foi aí que, ao pousar o olhar nos pulsos, um frio percorreu-lhe a espinha e, com olhos esbugalhados, fitou o copiloto e lhes mostrou, um relógio marcando 10h00 e o outro 11h00. Pediu para o copiloto ler seu relógio: “10h00, respondeu ele”. “Ufa”, respirou aliviada, pois tinha de volta uma referência. Neste instante, o engenheiro de voo repousa a mão sobre seu ombro e lhe diz: “Temos um problema; o meu marca 11h00!”. Rapidamente, chama as comissárias de bordo e faz o mesmo questionamento. Surpresa com a resposta, vai aos passageiros e constata que o Triângulo, por capricho, alterou exatamente uma metade dos relógios para marcarem 10h00 e a outra 11h00, uma vez que a quantidade de pessoas a bordo era ímpar. De súbito, passa a acreditar na maldição do Triângulo e que tem um grande problema em mãos: qual hora escolher? Outro dado importante: a previsão de combustível, na partida, garantiria 3,5 horas de autonomia.


Sentimentos


As reações que passam na cabeça de pessoas normais, devem seguir uma sequência parecida com: desorientação, desespero, frustração, desânimo e, finalmente, a realidade. Para seres treinados como a Cmdt Lady, isso também ocorre, só que em alguns segundos. Para os que optam por não treinar a gestão da mudança, as 3,5 horas passarão e o avião cairá. Cravados exatos 30 segundos, a Cmdt Lady puxa de seu arquivo mental os mantras sobre previsão, agora sua principal atitude diante da fragilidade e incerteza dos dados.


Previsões


Voltou à cabine, sem que os passageiros soubessem ao certo o que acontecia, e solicitou um minuto de reflexão à tripulação, tempo suficiente para que buscassem experiências parecidas. Neste instante, coisas sobre previsões vieram à sua cabeça:


  • “Até os melhores experts tiram dias de folga”. (Philip Tetlock)

  • “Em 20 anos de estudo, os dados mostram que as previsões de especialistas diferem pouco da de macacos jogando dados”. (Philip Tetlock)

  • “Crenças são hipóteses a serem testadas, não tesouros a serem guardados”. (Paul Armstrong)

  • “O que importa é imprevisível e o que é previsível não importa!” (Isaiah Berlin)


Olhando os mantras, rapidamente identificou-se como “a especialista”, assim como a líder, já que era a responsável pela vida de várias pessoas. A maturidade que se incrustou em sua mente, a fez assentir que não poderia tomar decisões sozinha. Pensou:


  • Líderes devem criar um ambiente que permita a proposição de correções, tomadas e execução de decisões.

  • A inflexibilidade de mindset faz com sejam tomadas decisões inadequadas. Nesse quadro, a postura é de reação ao invés de proposição de cenários positivos, de longo ou curto prazo. Nosso prazo é curtíssimo. Reação, decisão e execução acontecerão quase que ao mesmo tempo.

  • Os especialistas em mudanças concordam que a maioria planeja para um período específico, em vez de fazerem isto continuamente.

  • O melhor a se fazer é tomar continuamente pequenas decisões, para que não se acumulem a ponto de nem uma grande decisão conseguir resolver essa bronca.

  • O caminho para a solução deve ser tentado aqui e agora. Não temos acesso à torre. Não dá para terceirizar responsabilidades.

  • O avião está repleto de mindsets diversos. Tenho que explorar isso.


Planejamento


Saiu de seu estado de reflexão profunda, conversou com a tripulação, e foi à porta da cabine. Explicou a situação aos passageiros e gerenciou: “quem acredita que estamos próximo das 11h00, levantem a mão! Ok: peço para que dirijam-se à metade de trás do avião. O restante - praticamente metade - dirija-se à metade anterior da aeronave”. Chamou um grupo de G10 e o outro de G11, cada um gerenciado por uma comissária. De forma imperativa, pois não há espaço para “mimimi”, ela ordenou que os dois grupos, isoladamente, criassem um mapa da situação, para que, junto com a tripulação, pudessem decidir. Teriam um minuto para isso, após o qual cada comissária compilaria suposições e fatos.


Mapa da situação


Após um minuto, as comissárias retornaram com duas folhas escritas, que foram levadas à cabine e sintetizadas pela tripulação.


Mapa da situação sobre o Triângulo das Bermudas


Na primeira linha, a leitura pode ser feita assim: se a suposição é de que são 10h00, e de fato forem, a previsão de aterrissagem é de uma hora à frente. Na segunda, mantém-se a suposição, mas, de fato, são 11h00. Bronca, passarão do local da ilha de Porto Rico, e farão uma aquaplanagem. Na terceira linha, supõe-se 11h00, mas, de fato, são 10h. Bronca. Preparam-se para aterrissar mas estão a uma hora da ilha. Farão uma aquaplanagem. Na quarta linha, supõe-se, e de fato são, 11h00. Hora de aterrissar.


Sinuca de bico


Com relação aos dados, a Cmdt Lady encontra-se exatamente como antes: numa situação de cara-ou-coroa. Do ponto de vista de liderança, avançou muito e, perante a tripulação e passageiros, a decisão que está por tomar já está ratificada por todos e, independentemente do resultado, ela será aprovada como líder, pois utilizou todos os recursos que tinha à mão e optou por cocriar um processo, já que todos faziam parte dele, ao invés de centralizar tudo e decidir monocraticamente.


Decisão


Passado o momento de liderança, chegou a hora da gestora. Lembrou da ferramenta ERA, que a ajudava no descarte, nas razões e alternativas de escolhas. Já havia descartado a volta para o local de partida, pois não havia combustível suficiente. Olhando para o mapa da situação, viu o impasse, e optou por apostar suas fichas em um horário intermediário. Decidiu que voariam por mais meia hora. Se fossem 10h00, fariam um pouso à meia hora da ilha. Se fossem 11h00, também pousariam à meia hora da ilha, só que já tendo passado por ela. Em ambos os casos, fariam uma aquaplanagem ainda com combustível e o mais próximo possível da ilha, opção que evitaria o pior caso: a queda!


Finalizando…


Embora a situação acima seja fictícia (espero nunca ter acontecido), a metáfora tácita está nos relógios: um representa a conformidade; o outro a inovação. A pandemia pode ser vista como uma turbulência. A tripulação, seu time. Os passageiros, clientes. A ilha representa o Mercado. O Triângulo diz respeito às ondas que o Mercado emite. O tempo está escuro, mas existem indícios, estrelas guiando. Você pode preferir cair; nesse caso, fim-de-jogo! Ou, mesmo que não seja o melhor de tudo, consultar quem está à sua volta e preparar um mapa de situação que possa te orientar a, pelo menos, aquaplanar, e te dar a chance de religar os motores, transformar o avião num hovercraft (outra empresa, quero dizer, outra nave) capaz de “nadar” por mais alguns metros. De qualquer forma, o avião estaria inteiro e o mais próximo possível da terra.


A Cmdt Lady poderia ter tomado pequenas decisões para atordoar o Triângulo, e ter evitado tomar uma grande decisão. Exemplo: utilizar três ou um único relógio. Optar 100% por inovação, poderá fazer sua aeronave passar da ilha e cair por falta de combustível. Optar 100% pela comodidade, garantirá que você aterrissará em água, porém muito longe da ilha. Quem sabe alguém vá te resgatar?!


Moral da história: planeje, decida e execute! Garanto que os erros, à medida que acontecerem (isto é fato), tornar-se-ão menores do que a inércia.


P.S.: ficção ou não, você está no Air Innovation.


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