Micro techs: volta ao trabalho ou ao posto?


Essa semana recebi o texto “LinkedIn permite que funcionário escolha modelo de trabalho”, no qual a big tech outorga ao funcionário o formato que melhor lhe convier para o retorno às atividades, diferentemente de outras big (Apple, Google, Microsoft, por exemplo), que apostaram em um formato híbrido – uns dias lá, outros cá. Estas últimas basearam-se em nosso modo gregário de ser pois, reza a lenda evolucionária, gostamos da companhia um dos outros, seja para cooperar, competir, fofocar, paquerar, falar mal do chefe ou dizer que compramos um smartphone novo.


Sem querer entrar nos arranjos e metodologias psicológicas dessas decisões, pois não tenho brevê para tal, o que me chamou a atenção ao ler a reportagem foi que ela, praticamente, não se aplica ao Pindorama Brasilis, onde 99% das empresas são micro e pequenas, de acordo com o SEBRAE. Em outras palavras, somos 99% micro techs. Ou seja: o texto do LinkedIn tá massa, dá alguns insights, mas, na vera, não se aplica a gente. Quando se fala em empresas baseadas em tecnologia, como é o caso das big, é só estender uns “fiozinhos” aqui, umas fibras acolá, fornecer-se alguns PCs e pirlimpimpim, a mágica acontece: promove-se a pervasividade e nos tornamos ubíquos, um modo pomposo de dizer que “tendo acesso à Internet, chega-se a qualquer lugar”. As empresas tech manuseiam, digamos assim, elementos virtuais. Porém, como deveríamos proceder quando a esmagadora maioria dos estabelecimentos incluem commodities, serviços presenciais, logística etc., aqueles que envolvem manuseio ou transporte de massa, quanto à flexibilização do formato de trabalho? A ideia desta aula condensada é jogar o holofote em nossa realidade e levantar a questão: qual formato se deve, ou se pode, voltar ao trabalho por estas bandas? A quem caberia a decisão?


O modelo de nossos negócios


No site Montar um Negócio, são classificados por: 1) por setor: comercial, industrial, rural e prestação de serviços; 2) por porte: micro, pequena, média e grande (MPMG); 3) por faturamento (MPMG) e 4) por caráter jurídico, de individual a vários arranjos de sociedade. Excetuando-se algumas que utilizam e fornecem tecnologia em um nível de alta intensidade, segundo o SEBRAE, somos um país com poucas empresas grandes que manufaturam bens, outras poucas gigantescas que lidam com extrativismo e agronegócios, e o restante distribuídas entre as que beneficiam o que é extraído, as que vendem esses produtos (atacado) e as que lidam diretamente com a entrega destes aos clientes finais, o que caracteriza o varejo. Coloquemos as que lidam com saúde, educação, segurança, transporte e logística como de prestação de serviços. Vemos então um panorama bem diferente das big techs, que, por possuírem um modelo de negócio homogêneo, podem simplificar em única pergunta sobre o modelo de retorno ao trabalho.


Já que somos micro techs, que tal micro-TDs?


Não preciso, e nem quero, discutir o “sexo dos anjos” sobre a pauta educação & tecnologia & economia & custo Brasil. Também não pretendo ditar, ou mostrar, a quem está no fronte um mágico e fabuloso modelo de transformação digital, salvador de pátrias. Entretanto, podemos utilizar esse eterno pós-pandemia para redefinir o modelo de nossos negócios, e promover uma transformação analógica-digital utilizando algumas dicas das big techs. Não precisamos pensar como os funcionários devem voltar ao trabalho, mas quais postos ou setores de cada empresa podem ficar no digital e qual deles têm de voltar ao analógico.


Admitindo que somos micro techs, não precisamos promover, por enquanto, uma transformação digital ampla, aquela que envolve uma ressignificação radical dos conceitos cliente, valor, dados, competição e inovação, do modo como o realizado pelas big techs, por não termos condições para tal e sermos essencialmente um país de commodities. Isso não significa, entretanto, que estamos impossibilitados de utilizar as big techs para aprimorar nossos modelos de negócios, promovendo o que eu chamaria de micro transformação digital, ou micro-TD: tudo que lida com fluxo de informação ficaria no modo remoto e em nuvem, e tudo que lida com deslocamento, manuseio de massa ou prestação de serviços voltaria ao presencial ou, caso possa, no formato terceirizado. Some-se às plataformas informacionais aquelas que nos dão acesso às artérias do país, via caminhões, e a seus capilares, via delivers. Não seria uma TD raiz, mas enxugaria bem a máquina e a manteria sustentável, enquanto outras decisões são pensadas. Nesse novo desenho, alguns voltariam ao trabalho (remotamente) e alguns voltariam aos postos de trabalho (presencialmente). A estratégia não deveria ser pautada em decisão pessoal, mas por sobrevivência corporativa.


Finalizando...


Essa semana, fomos ao consultório de um amigo e dentista (vou preservar a figura), fazer um checkup nas “lajotas”. Ele, com certeza, deve ter por hobby (ou tortura) participar de stand-up comedy, pois conta suas melhores piadas enquanto estamos com a boca cheia de metais. Ele relatou que outro dia, ao ser interpelado via smartphone por um cliente, “Você faz teleatendimento?”, o doutor avançou: “Claro que sim: qual é o seu tele-problema?”. Engraçado, mas dá o que pensar... Bom teletrabalho pra vocês!

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