• Gláucio Bezerra Brandão

Procurando as bordas


Há aproximadamente 18 meses, escrevi a AC Ciência, tecnologia e inovação: ordem errada!, falando, de um modo geral, que estamos mirando para o lado errado, quando, por lentes acadêmicas, prescrutamos problemas do Mundo na tentativa de servir à Sociedade.


Acreditando não haver deixado claro o jeito GBB San de pensar, decidir e executar, muita gente achou que não estava falando sério. Fui então um pouco mais contundente e, três meses depois, fiz o upload para a Matrix da conversa Colocando uma jaca na cabeça, na qual mostrava que ser rebelde em um ambiente que preza apenas, vou reforçar, APENAS, pela biografia exposta em um currículo virtual é, para ser sintético, avassaladoramente esgotante. Desse artigo, por exemplo, trago um de meus recortes salgados: “(...) ao invés de papers que, traduzindo ao pé da letra, só ajudam a acabar com as árvores”. De lá para cá, por incrível que pareça, recebi alguns feedbacks interessantes em nossas aulas virtuais, sempre síncronas, de alunos querendo melhores explicações de meus pontos de vista, sobre a “ordem errada” e à total aversão a papers.


Trabalhando há algum tempo meu mindset no intuito de expurgar o ranço acadêmico e deixar prevalecer apenas o científico-pragmático (coisas que entendi serem completamente distintas e, na boa, quase opostas, como retratei em Cientista ou inovador? Dr. Jekyll or Mr. Hyde?, vou mudar a abordagem. Penso que, talvez, algo mais coloquial - uma frase do finado Steve Jobs -, seja mais apropriado. Ouvi num documentário (deixo sempre em inglês para ver se aprendo a “coisa”) uma frase dele, que dizia mais ou menos assim: “Quando você quer fazer algo novo, algo que resolva um problema da Sociedade, você não olha para o centro. Você olha para as bordas”. Peço desculpas pela pouca precisão das palavras, já que estava em inglês, mas o sentido ficou cravado em meu cerebelo com essa força aí, a do polêmico Jobs. Utilizarei o que entendi da frase do homem como mote para explicar o quanto estamos nos distanciando cada vez mais de que nos interessa resolver: nossos verdadeiros problemas.


O mote para esta AC


A gota d'água que fez derramar o líquido pelas bordas aconteceu na tarde desta segunda, 22Mar21, durante uma das aulas de ECT 2302, Metodologia Científica e Tecnológica. Uma estudante ativa (vou preservar a moça), muito gentilmente levantou a questão após eu ter dado uma opinião: “Por que ‘não’ aos artigos acadêmicos, professor? Por que o senhor não recomenda utilizar tal e tal periódico para a busca de soluções de broncas, de inspiração para concepção de artigos?”.


Sendo titular de uma disciplina compartilhada por outros professores, com pensamentos diferentes, claro, cujo material acadêmico foi concebido em conjunto, deixei claro que era apenas uma visão, a qual, obviamente, nunca poderia ser cobrada em qualquer tipo de avaliação. Minhas aulas, por serem científicas, têm de ser abertas a discussões filosóficas, onde questões ideológicas são desestimuladas. Ideologia é dogma, não é Ciência, não há como ser alçada a discussões. Quando exponho opiniões, e sendo um seguidor do filósofo Karl Popper, deixo claro que elas têm de ser refutáveis, desde que se ache como. “Quem tem ideia fixa é doido”, diz um aforismo.


Mas o que a estudante colocou foi precisamente correto: continuo com aversão aos artigos acadêmicos; não aos científicos. A diferença é abissal. Os artigos acadêmicos foram transformados em papel moeda para ascensão profissional e subsídios para a Ciência Política, e, pasmem, deixaram de ser científicos há muito tempo, quando a université, gran universidad, universitas, alma mater ou, “pra nóis”, universidade, decretou que só ela faz Ciência. Aí a coisa embaralhou, porque a galera passou a achar que tudo que sai dela é científico. Na verdade é apenas acadêmico, por isso o nome Academia. Agora vou explicar as bordas.


Estado de Borda


A frase de Jobs é marcante e poderosa. Ela pode ser tomada para traduzir de forma sintética, ou fundir, duas coisas ao mesmo tempo: Estado da Arte e Estado de Inovação. “Filando” da Wikipedia, o estado da arte das enciclopédias, transporto o conceito: “O primeiro uso do termo foi documentado em 1910, em um manual de engenharia, de Henry Harrison Suplee, intitulado Gas Turbine: progress in the design and construction of turbines operated by gases of combustion. Há uma passagem no livro onde se lê: "In the present state of the art this is all that can be done " ('No atual estado da arte, isto é tudo o que pode ser feito')”. Bonito, né não!


Não encontrei o conceito “Estado de Inovação” no Google, nem nos manuais de Oslo e Frascati, principais fontes internacionais de diretrizes em Inovação e Tecnologia, respectivamente. Entretanto, creio que seja tão óbvio que já deve ter sido pensado. Na falta de, e inspirado na frase do Steve, vou propor um conceito provisório: “estado em que as coisas estão no limite de, ou necessitam, terem suas funções substituídas, ou carecem de arranjos mais adequados”.


Juntando estado da arte ou da técnica (estado mais aprimorado do conhecimento sobre um determinado tópico, portanto estático), ao estado de inovação (ponto em que as coisas não mais funcionam e transformam-se em problemas ou oportunidades, também estático), defino o Estado de Borda como “sinais ou fluxos que apontam para o que deve ser feito além do que se tem”; este, portanto, é um estado dinâmico e em constante vácuo, atraindo você e soluções continuamente. No estado de borda as coisas, literalmente, pedem e apontam formas de serem substituídas, eliminadas.


Olhando para as bordas


Agora que criamos um micro-espaço científico com conceitos e métodos - só válidos aqui, claro -, posso explicar melhor o sentido que a academia deveria percorrer para ocupar novamente seu lugar no Panteão. Vou usar por mote a excelente dica de um estudante (preservarei o rapaz), que aconteceu na mesma aula e por efeito da mesma ótima discussão. Ele sugeriu acessar o site do World Economic Forum, Strategic insights and contextual intelligence, especializado em “Explorar e monitorar os problemas e forças que impulsionam a mudança transformacional em economias, setores e questões globais”. Acessei na noite do mesmo dia, me inscrevi e investi mais de uma hora no passeio pelo site. Simplesmente fantástico. O site é hiper dinâmico: você escolhe um tema e uma espécie de mandala aparece e te dá vários estudos sobre o que você escolheu. Ao clicar na mandala, ela conecta o assunto a outros da tela inicial. Testei o tema em voga: COVID-19. Automaticamente, a mandala tornou evidente a ligação da COVID a artigos de manufatura e logística. Ao clicar no sugerido para manufatura, por exemplo, surgiu um de bioquímica. O de logística levou a problemas de transporte da vacina na África. Um “complô” holístico, onde tudo está conectado. E o mais importante: nos quase 100 estudos científicos, tecnológicos, sociais, experimentais e de inovação que vasculhei em uma jornada de meia hora, o mais “antigo” datava de 18 de Março de 2021, 9:00 PM. Ou seja, são datados em horas. Isso é um exemplo de borda. Esse é um exemplo de plataforma que contém bordas e que serve de inspiração, não artigos acadêmicos estáticos de praxe.

Assuntos em “Estado de Borda”


Na linha de procurar por bordas, perguntei à estudante onde estaria a maior probabilidade de se encontrarem os problemas ou indicativos de solução, nos periódicos de artigos ou nos veículos que lidam com propriedade intelectual (PI)? Ela, acertadamente, respondeu que os que tratam da PI. A resposta tem lógica. Quem tenta resolver problemas de verdade produz PI e, para que valha a pena seus registros como patentes, autorias e derivados, terão de ser testados. Resultado - irônico por sinal - é que, nos dias de hoje, o método científico está sendo melhor aplicado nos elementos de inovação do que na própria Academia. Por este motivo, para entrar no mundo científico “raiz”, aquele que contém problemas reais da sociedade, recomendo buscas via Google Patents. Se sobrar tempo, veja outros veículos. Afinal, a Ciência, em seu princípio, conta com o empirismo; com a intuição. Partir de artigos acadêmicos fechados é certeza de se chegar onde o artigo chegou.


Com base no micro-espaço científico aqui desenvolvido, posso agora exemplificar. O Google Patents está para o estado de inovação, assim como o Strategic Intelligence está em estado de borda! Um culminará no outro.


O Mundo não é plano


Embora Thomas Friedman acredite que a globalização esteja nivelando os países, cujo graus de desenvolvimento eram díspares, quando se leva em conta aspectos de competição em várias frentes, acredito que isto esteja longe de acontecer. Façamos analogia com uma grande lâmina d’água. Então repare: se você está em um ambiente no qual não há informações - por serem improdutivas ou estáticas -, uma lâmina d’água em que nenhum barco se move, ou a correnteza está toda muito abaixo da superfície, ou você está muito longe da borda. Assim se encontra nossa Ciência (não nosso querido portal): ou na superfície ou muito longe da borda, das tendências, onde aventura acontece.


E por que estar perto disto é relevante, GBB San? Simples: como o Mundo não é plano, há irregularidades. Estas geram diferenças de pressão e fazem com que os fluidos movam-se. Seguir tendências, movimentos, correntes, é ir na direção das iniquidades de forma ativa, antes que elas nos alcancem. É não agir de forma tardia. Várias nações estão olhando para as tendências, buscando as bordas, as quais precedem as irregularidades, as baixas. Como consequência, para pegar novamente o tema em voga, já produzem suas vacinas. Nós, infelizmente e como sempre, dependeremos dos inovadores. Aguardamos os problemas virem até nós. Estamos dependentes da Ciência dos outros. Da vacinas dos outros.


Ordem errada


Agora posso me fazer entender. Criar uma Ciência ancorada no que que está intramuros, peneirar o que der para transformar em Tecnologia e, por fim, extrair alguns grãos para ver se geram Inovação, uma sequência C-T-I, é de baixíssima eficiência e altíssimo custo. Nessa sequência, força-se um sentido para o último item apurado, o grão de inovação, para justificar todo recurso investido. É o mesmo que tentar equilibrar um cone pelo vértice. Insustentável.


Observar o fluxo, encontrar as bordas procurando pelos problemas, depois aplicar as ferramentas, técnicas, métodos, processos que existem para resolvê-los e, não encontrando, criar uma ciência que “resolva a parada”, é muito mais estimulante, gratificante e sustentável, pois os recursos (humanos e financeiros) serão alocados de acordo com o nível de complexidade. Esta é a sequência I-T-C.


Talvez agora caiba a frase de Larry Hirst (ex-IBM): "Invenção é transformar dinheiro em ideias, inovação é transformar ideias em dinheiro". Inovação só poderá gerar valor se concretizada. Quando falo em inovação, refiro-me a todas as áreas do conhecimento, principalmente as sociais. Não se pode desperdiçar recursos financeiros para criar apenas ideias.


Finalizando…


Você tem intenção de resolver problemas de verdade, de escrever seu nome nas estrelas e deixar algum legado para o mundo? Tenho um conselho simples: entre em estado de borda e siga o fluxo.


Dedico esta AC, um artigo não-acadêmico, às turmas T01 e T02 de ECT-2302 do ano de 2021 (aprendo demais com essa galera), e a todos os seres vivos que observam os fluxos procurando por bordas, pois são a promessa de um presente e de um futuro melhores.


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